Delírio

Posted in Poemas. on 22/02/2010 by nuancesazuis

Foram esquecidos os múltiplos corações
Pulsando forte por motivos vãos,

Pois tenho o mundo concentrado em minhas mãos
E sinto de uma só vez todas as estações!

No meu cérebro brotou uma flora,
De cores vivas e perfumes anis.
Serei sempre jovem – que se passem as horas
No meu paladar perduram os gostos primaveris.

Sinto o veraneio curar as feridas do ofício,
Os meus olhos carregam sóis ainda mais quentes.
O vento seco que vinha soprar no solstício,
Vem constante trazer o ocaso a me tocar mais ardente!

Tomo o chá outonal que morno demora,
Aquecendo cânticos até o esôfago embalados.
Resplandece em meu estômago a aurora
Amarela e mansa – como antigos retratos  –

Vejo a beleza de campos nublados, e qual beijo gelado
O frio estala em minhas costas docemente;
É manhã de orvalho em minha pele e ando sossegado,
Com a tranquiliadade de quem dorme no ventre.

Eis-me!
No meu cérebro brotou uma flora

Os meus olhos carregam sóis ainda mais quentes
Resplandeceu em meu estômago a aurora,
Com a tranquilidade de quem dorme no ventre.

Compreendo o diverso em uma unidade
A claridade dos meus olhos enxerga com exatidão.
E com o mundo concentrado em minhas mãos,
Vou seguindo para a eternidade…

Pintura por Edward Munch.

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O rosto alheio

Posted in Outras nuances., Poemas. on 22/11/2009 by nuancesazuis

A face que se mostra – singela e disposta-
Guarda vestígios reclusos em rugas e traços.
De repente, qual flagra de um inesperado refletor
Se apresenta em minha frente um rosto de horror!

Os olhos, de uma fome sem fim
Brilham com desespero devorador,
O nariz degenerando-se em excreções vis
E a boca torta por palavras mal compostas…

Foi uma pausa. Um lapso. Deslize…
__ Conceda mais um instante, o apagar do refletor:
De repente, pisque os olhos novamente
E é desfeito o embaraço!

A face que se mostra – singela e disposta-
Sorri, e traz as bochechas decoradas com carmim.

Imagem por Francis Bacon.

Miopia do real, cegueira dos sonhos.

Posted in Outras nuances., Poemas. on 20/09/2009 by nuancesazuis

magritte7Prefiro olhar no céu as nuvens cinzentas
Nos dias em que o céu cinza se apresenta
E caminhar por terras quentes,
Ensolarando minhas visões e pensamentos.
Se não alcanço a nitidez nesse momento
Os meus olhos precisam de lentes!

A fantasia se projeta em espelhos
Espalhando-se pelo sangue em série
É preciso ter os olhos abertos, acesos
E observar do mundo suas intempéries
Pois, ao fechar os olhos  –  no céu das pálpebras
Só restará o escuro da cortina de pele presente…

Nenhum  sonho em mente.

Imagem por René Magritte.

A árvore bicentenária

Posted in Poemas. on 30/05/2009 by nuancesazuis

salvador-dali-3-sphinxes-of-bikini

Bem no meio de uma praça esquecida
Uma árvore de raízes colossais,
Atravessa o tempo em solidão desmedida,
Assistindo aos espetáculos de gestos boçais.

Tronco invejoso dos ciganos! Murmura o seu lamento…
Recebe dos animais a excreção
E na ânsia de lavar-se em purificação
É pescador de presságios trazidos pelo vento!

Cúmplice dos atos mais escarninhos
Em tua sombra segredaste amores disfarçados,
Amante virgem de bêbados cansados
Nutres de mágoa o teu corpo daninho.

Ontem, escondeu-te em ti uma criança
[escapando um carinho
Pássaros se divertem entre teus galhos, fazem ninhos…
__  Árvore mãe de centenas de anéis:
São só breves afagos infiéis!

Árvore de senis histórias,
Quão penoso é seu legado!
Nunca contarás um instante de vitória,
Condenada à prisão perpétua dos pecados.

Imagem de Salvador Dalí.

Café noturno.

Posted in Poemas. on 17/04/2009 by nuancesazuis

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Nessa noite, entrei em um café noturno.
Pedi um café sabor estrelas reluzentes,
E na ânsia de beber o céu e seus amargos versos,
Perdi meu olhar num corredor imerso
Na escuridão onde bailam casais inexistentes.

O vazio que decora e assombra o ambiente
Faz as mesas serem várias e apenas uma.
Num açoite, tomo todo o café ou o universo,
Já não reluzem as estrelas nem luz alguma
Mas dentro de mim reverberará um brilho diferente…

Saio do café.
Meus passos desaparecem na noite.
E a certeza que me agrada,
É que no frio que petrifica a madrugada
O meu corpo seguirá quente!

Pintura de Van Gogh.

O medo

Posted in Poemas. on 31/01/2009 by nuancesazuis

dali_soldier_warning-o-medo1Tenho mil temores, horrores, grupelhos
Edificados por medos e instintos.
Se se levanta o pavor em minha frente sinto
Um enorme monstro multiplicado por espelhos!

Por sua extensão cascuda desce o lume
Decifrando a agonia dos meus movimentos
E quando a asfixia está prestes a irromper a asma
Alastra-se a voz clara que a minha mente assume:

– Não penses que vem de fora para dentro
Essa tua expressão pasma
Vem do interior trépido de desconhecimento
Do arrepio de especulações que não chegam ao centro…

…. O medo é o maior fantasma! –

Nalgum lugar o fantasma do medo se recolhe
Retraído, seu corpo não está morto, apenas dorme.
E persiste na sua face adormecida e muda
O brilho salvagem do olho na órbita papuda.


Pintura de Salvador Dalí, advertência do soldado.

Perto do anoitecer

Posted in Poemas. on 11/01/2009 by nuancesazuis

renoir_promenade

Unidos os dedos mornos
Aquecem carinhos de casal pela rua deserta.
Andam com frescor, as omoplatas bem abertas
Em cada peito um coração à bordo.

Lado a lado, algo por dentro zarpa no entusiasmo
A navegar por um mar de inquietação.
Agitando a água com veemência de paixão,
Um rio deságua no interior do corpo pasmo!

É doce como são os rios – foi ao mar em naufrágio
E só se enxerga confundir os corpos o sereno frágil!
Vai-se o casal a conhecer o amor à forma nua
Mas suas almas seguem tão sozinhas quanto aquela rua.

Pintura: La promenade, Renoir.