A tantas ando.

Que me venham fazer companhia a noite, o breu,
A tempestade, os tons de cinza, o frio…
Todo o clichê que a poesia reclama.

Nenhuma imprevisibilidade ofereço.
Nenhuma imprevisibilidade me aguarda.

Sinto-me tão sozinha que o cair de um alfinete no chão
Pode estremecer a minha alma!

 

Imagem por Modigliani.

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11 Respostas to “A tantas ando.”

  1. Srta Astro Says:

    Este teu último poema é tão tu, gabriela. Dá a impressão de te tocar. É lindo e triste. Estanha sensação de te compreender em poucas palavras, de me aproximar de você, por mais simples que pareça, sem rodeios, sem explicações intelectivas!

    Não: não digas nada!
    Supor o que dirá
    A tua boca velada
    É ouvi-lo já

    É ouvi-lo melhor
    Do que o dirias.
    O que és não vem à flor
    Das frases e dos dias.

    És melhor do que tu.
    Não digas nada: sê!
    Graça do corpo nu
    Que invisível se vê.

    Fernando Pessoa

  2. Comentário genérico e vazio só porque eu gosto muito de você! hehe =D

    A Solidão é fera
    A Solidão devora
    É amiga das horas, prima irmã do tempo
    Faz nossos relógios caminharem lentos
    Causando um descompasso no meu coração

    Alceu Valença

  3. nuancesazuis Says:

    Nossa! to adorando essas relações musicais de vcs!
    todos se encontram nelas… na poesia, na música, na solidão

  4. Juninho Says:

    Sinto-me tão sozinha que o cair de um alfinete no chão
    Pode estremecer a minha alma!

    Tal solidão parece ser muito indesejada. Solidão tão sensível que reverbera para a alma a vibração do cair d’um leve e pequenino alfinete, é a solidão de um ser que espera com ansiedade e com uma sensibilidade tão plena, qualquer sinal de aproximação da manhã ou de outros seres… Solidão insone, intranquila…

  5. nuancesazuis Says:

    Que linda leitura, Juninho!
    Quando leio esse poema tb sinto isso, ao me deparar com esse último verso.

    solidão “sensível, insone, intranquila”… só nao consigo perceber tanta ansiedade nesse eu-lírico…

    Nenhuma imprevisibilidade ofereço.
    Nenhuma imprevisibilidade me aguarda.

    é como se a ansiedade fosse uma ânsia derrotada, me parece que a solidão foi tomada como condição por esse eu-lírico, mesmo que exista ansiedade, ou qualquer outra chama resistindo…

  6. Juninho Says:

    “Nenhuma imprevisibilidade ofereço.
    Nenhuma imprevisibilidade me aguarda.”

    Quando estava escrevendo o primeiro comentário pensei sobre essa derrota da ânsia, como você disse. Mas acho que a ausência da imprevisibilidade é quase que a condição exata para intensificação da ansiedade: e a ânsia se torna intranquila pela a certeza da previsibilidade.

    Como posso sentir-me ansioso pelo acontecimento de algo, se sei que nada irá acontecer? Embora aprioristicamente assim ocorra… “Sinto-me tão sozinha que o cair de um alfinete no chão/Pode estremecer a minha alma!”: o cair de um alfinete é previsível? Se for, como ele pode estremecer a alma? Como materialista, não consigo entender isto senão por uma condição psicológica… A queda de um alfinete não produz som e nem possui massa suficiente para estremecer qualquer coisa à olho nu. Logo o “estremecer” é da “psiquê” (alma) e ocorre pela ruptura de um estado estático da alma. Esta violência contra a calmaria do ser, tem como consequência a ansiedade… o estado insone e intranquilo do ser…

    Porém o imprevisível se for previsível perde sua condição ontológica de existência, e se torna mero movimento físico não humano: princípio da incerteza de Heisenberg; especulações da física teórica.
    “Nenhuma imprevisibilidade me aguarda” é a afirmação do que é previsível, e este só se torna concreto pela possibilidade de um evento imprevisível. A dialética como o movimento real das coisas conduz a percepção de que a ânsia surge como a síntese da contradição imprevisível/previsível.

    ps.: acho que não fui claro no primeiro e segundo parágrafo, mas tou impaciente no momento. não tou afim, neste instante, de aprimorar o que quero dizer…

  7. Juninho Says:

    Ei, mas e aí? vc gostou desse comentário?

    Ainda não consigo ler esse peoma sem achar que existe ansiedade… o “estremecer” e a aceitação consciente de que “nada vai acontecer” me conduz necessariamente a isso.

    • nuancesazuis Says:

      Sim, vc pode ler da forma que quiser e sua leitura é cabível. Pode-se haver ansiedade, como todos seus argumentos demonstram, ou pode não haver tbm, o eu-lírico pode estar denunciando um estado seu – condicional, permanente ou passageiro – de solidão, tão forte e aguda, que só pôde ser expressa dessa forma. O cair do alfinete no chão é imprevisível e essa imprevisibilidade rompedora do estado anterior descrito, e mais de um objeto tão silencioso quanto um alfinete, ter o poder estremecer a alma, foi a maneira encontrada para essa denúncia solitária, para fazer com que a gente sinta a intensidade dela.
      O “cair de um alfinete no chão pode estremecer a minha alma”, “pode”, o eu-lírico não afirma com certeza se sua alma estremecerá ou não, mas sim que há um potencial para isso ocorra, tal a intensidade do que sente…. pode ser que haja ansiedade ou não, pode ser que seja uma solidão inevitável, mutável, imutável etc
      O que importa, na poesia, é ler e sentir. O entendimento dessas sensações, vai variar de acordo com quem lê.

  8. Juninho Says:

    Eu acho essa história de “eu-lírico” uma conversa meio fiada… pra mim dessa história do eu-lírico é tu, pois foi tu quem escreveu. se existiu eu-líricos de verdade, isso tá em F. Pessoa com seus heterônimos.

    e contrargumentar pelo “pode” foi uma saída materialista, mas não relativista como vc quer supor… acho tbm conversa fiada isso de entender de “com quem lê”… mas depois construo melhor o argumento… rsrsr

    ;***

  9. Eu-lírico difere de heterônimo. Vc ta tendo uma idéia de eu-lírico próxima a do heterônimo, por isso está confundindo. No heterônimo é criada uma pessoa à parte do autor, com nome e biografia próprias e uma poesia que obedece a um estilo coerente a cada heterônimo criado. Quando falo em eu-lírico, não me refiro a um ser totalmente à parte, nem sequer a um “ser”, como ocorre nos heterônimos. Quando falo em eu-lírico, quero dizer que o está escrito não é necessariamente o meu estado atual, um desabafo pessoal, mas também, não se trata de outra pessoa independente de mim. Tipo, eu posso estar alegre e escrever uma poesia triste e vice-versa. Na poesia, pode-se construir sensações de abandono, satisfação etc, sem necessariamente, o autor ou autora ter sido abandonado, ou estar satisfeito, isso é possível através da sensibilidade e da razão, que proporcionam a construção poética, assim, eu/ autora posso conhecer a sensação de cair de uma cadeira e fazer disso uma analogia com o abandono, por exemplo, mesmo sem ter sido abandonada e com isso convencer os leitores e leitoras dessa sensação e até levá-los a uma identificação com ela. Já que vc falou em Pessoa, vou usar um trecho do famoso poema dele que trata justamente disso, o “autopsicografia”, assinado como Fernando Pessoa:

    O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.

    Psicografar quer dizer escrever por meio de espíritos, por meio de outros, mas Pessoa fala em autopsicografia, ou seja, esses outros compõem ele, não se separam dele. O poeta consegue por meio do conhecido ( a dor que deveras sente) criar/adentrar o desconhecido (ser um fingidor), por isso que chamamos de eu-lírico, pq a poesia não deve ser transferida ou explicada por meio da vida pessoal de quem a fez, mesmo que exista ligações e cunho autobiográfico, não é possível, através do poema, do leitor descobrir até onde é autobiografico e até onde não é … e aliás, isso não tem grande importância.
    Enfim, quem escreve é uma autora, e não um heterônimo com biografia e assinatura própria, mas essa autora é uma fingidora, que usa do lirismo para construir atmosferas, por isso chama-se eu-lírico. Sobre isso Rimbaud dizia: “eu é outro”, ou seja, o eu-lírico é outro, mas não deixa também de ser eu.

  10. Quanto ao relativismo de interpretações, o coloco por existir diversos leitores, com suas vivências e opiniões, que irão se relacionar e confrontar com oq está escrito. Com isso, estou longe de querer promover a neutralização e generalização do poema escrito, até pq para provar a coerência das interpretações, é preciso recorrer ao poema. A poesia trabalha com linguagem, não se revela tudo que se quer expressar de forma direta e simplória, oq eu quero dizer, é que é possível e bom se ter diferentes olhares sobre uma leitura, principalmente quando se trata de arte.
    “a saída materialista” do “pode” veio pra mostrar isso, pra confrontar com a leitura que vc tinha feito.

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