Arquivo para maio, 2008

A metamorfose, Kafka*

Posted in Outras nuances. with tags on 24/05/2008 by nuancesazuis

No início do romance “A metamorfose” de Franz Kafka, o personagem Gregor Samsa desperta de um sonho agitado, metamorfoseado numa espécie monstruosa de inseto. Por um tempo, ele permanece deitado de costas e percebe sua nova condição. Pergunta-se “O que terá acontecido?” e constata que não é um sonho. Então, olha pela janela e vê que o dia está chuvoso, tenta se virar para o lado direito para dormir mais um pouco, mas sua carapaça o impede. Reclama de sua profissão de caixeiro-viajante e considera grotesco ter que acordar cedo.
O grande impacto deste início do romance advém do fato de que a escabrosa transformação da personagem em inseto é tratada de forma corriqueira pela personagem e descrita de um jeito frio e distanciado pelo narrador. Não se trata de a personagem sentir-se como um inseto, mas de sê-lo efetivamente, ou seja, não existe metáfora.
Chama a atenção o fato de que a experiência subjetiva da personagem é objetivada na forma de um inseto, de tal modo, que para Gregor Samsa não faz diferença, nesse primeiro momento, ter se tornado um inseto.

Já a família e a empregada de Gregor, apresentam comportamentos variados em relação à metamorfose. No princípio, a irmã de Gregor fica muito abalada com a metamorfose do irmão e procura, apesar do asco, cuidar para que ele fique bem. Faz isso para poupar seus pais da terrível experiência de ter um filho transformado em inseto. Esse comportamento, no entanto, se torna mecanizado com o passar do tempo.
A irmã alimenta por Gregor um sentimento contraditório. Porque julga conhecê-lo profundamente, passa a tratá-lo como um inseto. Essa atitude ambígua, ao mesmo tempo que o protege, reforça sua condição de estorvo para a família. À medida que Gregor deixa de ser útil no mecanismo familiar, a irmã o despreza cada vez mais, chegando a isolá-lo completamente. Para a irmã de Gregor, mais importante do que preservar a integridade do irmão, é manter em funcionamento a ordem da família.
A empregada representa o contraponto à hipocrisia dos bons sentimentos burgueses. A atitude pragmática da faxineira ao livrar-se do inseto, desmascara o comportamento interesseiro da família que, em nome dos “bons sentimentos”, mantinha o filho na casa por ter a esperança de que ele poderia voltar a ocupar sua função de provedor do sistema familiar.
A presença dos hóspedes, que os pais do protagonista acolhem, ressalta a imagem parasitária da família. Nesse sentido, os familiares de Gregor, contrastados com os hóspedes, se mostram mais insetos do que o filho, em quem pesa todo seu verniz de humanidade.
O romance encerra-se, após o isolamento e morte de Gregor, e a notícia da empregada à família de que se livrou “daquilo”. A família passa a ver o ocorrido como história passada e começa a fazer planos para o futuro. O sol abre e resolvem dar um passeio.
Superado o empecilho de ter um filho metamorfoseado em inseto, a família retoma à sua pacata vida burguesa. Essa atitude revela que na sociedade capitalista, as relações pessoais, inclusive as relações familiares, têm um caráter utilitário determinante.
Gregor Samsa, como peça desajustada desse sistema, é simplesmente descartado, uma vez que não mais supria as necessidades econômicas da família. Ressalta-se, neste livro, o mundo da aparência burguesa, onde o que importa é estar “bem ajustado”.

* Rememorando o primeiro período do curso. Prova que fiz em conjunto com Márcio, Dan e João, na cadeira de Introdução aos Estudos Literários :]

Gradação Universal.

Posted in Poemas. on 12/05/2008 by nuancesazuis

foto de solfier em 15/04/07

O vento leva a areia das planícies,
As folhas caídas do outono,
Volve-lhe entre os dedos…
O cavaleiro, erguido,
Percebe a sua realidade ilusória
Vê quanto a natureza é perfunctória
Banhada em seu perfume de vida, lívido!
O seu aroma o desperta
Trazendo uma pungente saudade
De um tempo mais vívido!

O cavaleiro, prostrado,
Olha ao seu redor…
As pedras são damas tristes,
As flores um quadro inacabado…
Então espera, esvaindo-se
O ameno adeus – sutil e eterno –
E começa a entender
Em suas horas derradeiras:
A beleza do efêmero.