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Relato de um instante torto.

Postado em Outras nuances. em Setembro 27, 2008 por nuancesazuis

Caminhava a passos amargos, como a sentir o pesar do dia. Vi, de repente, carcomida estátua carregando um semblante de horror! Meu corpo permaneceu imóvel, congelado de pavor! Quantos pensamentos distorcidos trazia aquele objeto tão estéril! Uma parte sua faltava… Para diminuir minha repugnância ou aumentar seu suplício? Continuei a caminhar, taciturno. Bem sabia: por mais horripilante que ela seja e jamais ninguém a esqueça, nunca passará de uma feia e inacabada estátua.


Imagem por Francis Bacon. (Na falta de uma estátua, coloquei uma pintura do Bacon, nada melhor para representar o horror não? Apesar dessa pintura ser até simpática.)

A Fella With An Umbrella, Frank Sinatra.

Postado em Outras nuances. em Agosto 24, 2008 por nuancesazuis

A Fella with an umbrella.

I’m just a fella, a fella with an umbrella,
Looking for a girl who saved her love for a rainy day.
I’m just a fella, a fella with an umbrella,
Glad to see the skies of blue have turned into skies of gray.
Raindrops have brought us together,
And that’s what I long to see.
Maybe the break in the weather will prove to be a break for me.
So I’ll be the fella, that fella with an umbrella,
If you’ll be the girl who saved her love for a rainy day.

Oh, the raindrops have brought us together,
And that’s what I long to see.
Maybe the break in the weather will prove to be a big break for me.
So I’ll be the fella, the kid with the small umbrella,
If you’ll be the girl who saved her love for a rainy day.
If you will be the girl, the girl who saved her love for a rainy day.

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Um Cara Com Um Guarda-Chuva.

Eu sou apenas um cara, um cara com um guarda-chuva
Procurando por uma garota que tenha guardado seu amor para um dia chuvoso.
Eu sou apenas um cara, um cara com um guarda-chuva,
Lisonjeado por ver que os céus azuis se tornaram céus cinzas.
Gotas de chuva nos uniram,
E é disso que eu tenho saudades de ver.
Talvez a mudança no clima prove ser um rompimento para mim.
Então eu serei o cara, aquele cara com um guarda-chuva,
Se você for a garota que guardou seu amor para um dia chuvoso.

Oh, as gotas de chuva nos uniram,
E é disso que eu tenho saudades de ver.
Talvez a mudança no clima prove ser um grande rompimento para mim.
Então eu serei o cara, aquele cara com um guarda-chuva,
Se você for a garota que guardou seu amor para um dia chuvoso.
Se você for a garota, a garota que guardou seu amor para um dia chuvoso.

O improviso em Ohio by Samuel Beckett.

Postado em Outras nuances. em Julho 20, 2008 por nuancesazuis

“Vi o rosto querido e ouvi as palavras mudas
Não precisas mais ir ter com eles,
Mesmo que tivesses esse poder.
Assim, a triste história uma última vez redita,
Ficaram sentados como se fossem de pedra.
Pela única janela a madrugada não vertia nenhuma luz
Da rua nenhum ruído de ressurreição.
A menos que, abismados em sabe-se lá que pensamentos, eles estivessem insensíveis à luz do dia”

Fragmento de “Improviso em Ohio” por Samuel Beckett.

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Samuel Beckett traz mais uma vez o silêncio, “o abismo de consciência” que recai sobre a solidão da fantasiosa sociedade burguesa ocidental, palco das críticas do Teatro do Absurdo.

“Resta pouco a dizer numa última tentativa de sofrer menos.”


Marc Chagall.

Postado em Outras nuances. em Junho 25, 2008 por nuancesazuis


Marc Chagall foi um pintor russo que viveu 98 anos(1887 – 1985). Teve uma forte formação judaico-cristã, resultando em vários quadros em que sua religião está presente, como também o casamento.
Costumava escapar à realidade natural, pintando pessoas, animais e objetos voando; além de elementos e cores, geralmente: azul, branco, fortes tons de vermelho, amarelo e verde; que formavam retratos de seu inconsciente.


Seus quadros tinham um ‘quê’ de sonho, de fantástico, que o pintor figurava com um ar romântico e de infância.
Nos anos que passou em Paris, Chagall incorporou traços cubistas em suas pinturas, estas também possuiam características do fauvismo e do surrealismo, sendo difícil, assim, encaixar Chagall em um movimento artístico modernista.
Com seu modo particular de fazer arte, Chagall encanta a muitos.  Pintou cenários para “O pássaro de fogo” de Stravinsky e na fase final de sua vida dedicou-se aos vitrais para sinagogas e igrejas, mosaicos, cerâmicas e tapeçarias.

Os quadros usados aqui: A carruagem voadora, 1913.
O Passeio, 1917.
As três acrobatas, 1926.

A metamorfose, Kafka*

Postado em Outras nuances. com as tags em Maio 24, 2008 por nuancesazuis

No início do romance “A metamorfose” de Franz Kafka, o personagem Gregor Samsa desperta de um sonho agitado, metamorfoseado numa espécie monstruosa de inseto. Por um tempo, ele permanece deitado de costas e percebe sua nova condição. Pergunta-se “O que terá acontecido?” e constata que não é um sonho. Então, olha pela janela e vê que o dia está chuvoso, tenta se virar para o lado direito para dormir mais um pouco, mas sua carapaça o impede. Reclama de sua profissão de caixeiro-viajante e considera grotesco ter que acordar cedo.
O grande impacto deste início do romance advém do fato de que a escabrosa transformação da personagem em inseto é tratada de forma corriqueira pela personagem e descrita de um jeito frio e distanciado pelo narrador. Não se trata de a personagem sentir-se como um inseto, mas de sê-lo efetivamente, ou seja, não existe metáfora.
Chama a atenção o fato de que a experiência subjetiva da personagem é objetivada na forma de um inseto, de tal modo, que para Gregor Samsa não faz diferença, nesse primeiro momento, ter se tornado um inseto.

Já a família e a empregada de Gregor, apresentam comportamentos variados em relação à metamorfose. No princípio, a irmã de Gregor fica muito abalada com a metamorfose do irmão e procura, apesar do asco, cuidar para que ele fique bem. Faz isso para poupar seus pais da terrível experiência de ter um filho transformado em inseto. Esse comportamento, no entanto, se torna mecanizado com o passar do tempo.
A irmã alimenta por Gregor um sentimento contraditório. Porque julga conhecê-lo profundamente, passa a tratá-lo como um inseto. Essa atitude ambígua, ao mesmo tempo que o protege, reforça sua condição de estorvo para a família. À medida que Gregor deixa de ser útil no mecanismo familiar, a irmã o despreza cada vez mais, chegando a isolá-lo completamente. Para a irmã de Gregor, mais importante do que preservar a integridade do irmão, é manter em funcionamento a ordem da família.
A empregada representa o contraponto à hipocrisia dos bons sentimentos burgueses. A atitude pragmática da faxineira ao livrar-se do inseto, desmascara o comportamento interesseiro da família que, em nome dos “bons sentimentos”, mantinha o filho na casa por ter a esperança de que ele poderia voltar a ocupar sua função de provedor do sistema familiar.
A presença dos hóspedes, que os pais do protagonista acolhem, ressalta a imagem parasitária da família. Nesse sentido, os familiares de Gregor, contrastados com os hóspedes, se mostram mais insetos do que o filho, em quem pesa todo seu verniz de humanidade.
O romance encerra-se, após o isolamento e morte de Gregor, e a notícia da empregada à família de que se livrou “daquilo”. A família passa a ver o ocorrido como história passada e começa a fazer planos para o futuro. O sol abre e resolvem dar um passeio.
Superado o empecilho de ter um filho metamorfoseado em inseto, a família retoma à sua pacata vida burguesa. Essa atitude revela que na sociedade capitalista, as relações pessoais, inclusive as relações familiares, têm um caráter utilitário determinante.
Gregor Samsa, como peça desajustada desse sistema, é simplesmente descartado, uma vez que não mais supria as necessidades econômicas da família. Ressalta-se, neste livro, o mundo da aparência burguesa, onde o que importa é estar “bem ajustado”.

* Rememorando o primeiro período do curso. Prova que fiz em conjunto com Márcio, Dan e João, na cadeira de Introdução aos Estudos Literários :]