A árvore bicentenária

Publicado em Poemas. às Maio 30, 2009 por nuancesazuis

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Bem no meio de uma praça esquecida
Uma árvore de raízes colossais,
Atravessa o tempo em solidão desmedida,
Assistindo aos espetáculos de gestos boçais.

Tronco invejoso dos ciganos! Murmura o seu lamento…
Recebe dos animais a excreção
E na ânsia de lavar-se em purificação
É pescador de presságios trazidos pelo vento!

Cúmplice dos atos mais escarninhos
Em tua sombra segredaste amores disfarçados,
Amante virgem de bêbados cansados
Nutres de mágoa o teu corpo daninho.

Ontem, escondeu-te em ti uma criança
[escapando um carinho
Pássaros se divertem entre teus galhos, fazem ninhos…
__  Árvore mãe de centenas de anéis:
São só breves afagos infiéis!

Árvore de senis histórias,
Quão penoso é seu legado!
Nunca contarás um instante de vitória,
Condenada à prisão eterna dos pecados.

Imagem de Salvador Dalí.

Café noturno.

Publicado em Poemas. às Abril 17, 2009 por nuancesazuis

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Nessa noite eu quero um café noturno.
Um café mergulhado em estrelas reluzentes
Beber o céu escuro e de amargos versos
Na evasiva de um corredor imerso
Na escuridão de casais inexistentes.

O vazio que decora e assombra o ambiente
Faz as mesas serem várias e apenas uma.
Num açoite, tomo todo o café ou o universo,
Já não reluzem as estrelas nem luz alguma
Mas dentro de mim reverberará um brilho diferente…

Saio do café.
Meus passos somem errantes pela noite.
E a única certeza que me agrada,
É que no frio que petrifica a madrugada
O meu corpo seguirá quente!

Pintura de Van Gogh.

O medo

Publicado em Poemas. às Janeiro 31, 2009 por nuancesazuis

dali_soldier_warning-o-medo1Tenho mil temores, horrores, grupelhos
Edificados por medos e instintos.
Se se levanta o pavor em minha frente sinto
Um enorme monstro multiplicado por espelhos!

Por sua extensão cascuda desce o lume
Decifrando a agonia dos meus movimentos
E quando a asfixia está prestes a irromper a asma
Alastra-se a voz clara que a minha mente assume:

- Não penses que vem de fora para dentro
Essa tua expressão pasma
Vem do interior trépido de desconhecimento
Do arrepio de especulações que não chegam ao centro…

…. O medo é o maior fantasma! -

Nalgum lugar o fantasma do medo se recolhe
Retraído, seu corpo não está morto, apenas dorme.
E persiste na sua face adormecida e muda
O brilho salvagem do olho na órbita papuda.


Pintura de Salvador Dalí, advertência do soldado.

Perto do anoitecer

Publicado em Poemas. às Janeiro 11, 2009 por nuancesazuis

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Unidos os dedos mornos
Aquecem carinhos de casal pela rua deserta.
Andam com frescor, as omoplatas bem abertas
Em cada peito um coração à bordo.

Lado a lado, algo por dentro zarpa no entusiasmo,
A navegar por um mar de inquietação…
Agitando a água com veemência de paixão,
Um rio deságua no interior do corpo pasmo!

É doce como são os rios – foi ao mar em naufrágio
E só se enxerga confundir os corpos o sereno frágil!
Vai-se o casal a conhecer o amor à forma nua
Mas suas almas seguem tão sozinhas quanto aquela rua.

Pintura: La promenade, Renoir.

O homem que assobiava nuvens

Publicado em Poemas. às Dezembro 26, 2008 por nuancesazuis

Cansado de ter pensamentos de aluguéis
Registrava novos matizes em seus papéis.
Logo o sol aqueceu sua cabeça rente
E fortes sensações o empurraram para a frente!

Vagou por imensos trigais de pincéis
(acariciando seus cabelos)
A natureza divagava sob seus pés descalços,
A imensidão sensível atravessava-lhe a epiderme,
Brincava em suas narinas – arrepiava-lhe os pêlos!

Sentou-se na vastidão a contemplar…
Talvez com palavras gentis ou malvadas
Mas da sua boca só saiam fumaças azuis e douradas…
O universo estava todo auriazul.
Era a metafísica em transformação arrebatada
Era toda a vida sendo reinventada!

Pintura de Emil Nolde.

Sem título.

Publicado em Poemas. às Outubro 28, 2008 por nuancesazuis

A vida – começo e meio- passa esguia
No relógio, os ponteiros batem em vigia
O prazer virá de que fonte?
Se o fim levará o começo e o meio.
Minha imagem-mundo que se monte
Em uma ponte, um rio, um vazio.


Imagem: Edward Hopper.

Relato de um instante torto.

Publicado em Outras nuances. às Setembro 27, 2008 por nuancesazuis

Caminhava a passos amargos, como a sentir o pesar do dia. Vi, de repente, carcomida estátua carregando um semblante de horror! Meu corpo permaneceu imóvel, congelado de pavor! Quantos pensamentos distorcidos trazia aquele objeto tão estéril! Uma parte sua faltava… Para diminuir minha repugnância ou aumentar seu suplício? Continuei a caminhar, taciturno. Bem sabia: por mais horripilante que ela seja e jamais ninguém a esqueça, nunca passará de uma feia e inacabada estátua.


Imagem por Francis Bacon. (Na falta de uma estátua, coloquei uma pintura do Bacon, nada melhor para representar o horror não? Apesar dessa pintura ser até simpática.)

Convite

Publicado em Poemas. às Setembro 6, 2008 por nuancesazuis

Vem
E percorre a estrada longa e aflita,
Cheia de sede e sem jardim.
Descendo vertical e infinita
Ao abismo escuro e secreto
[de mim]


Imagem: Judith, por Gustav Klimt.

A Fella With An Umbrella, Frank Sinatra.

Publicado em Outras nuances. às Agosto 24, 2008 por nuancesazuis

A Fella with an umbrella.

I’m just a fella, a fella with an umbrella,
Looking for a girl who saved her love for a rainy day.
I’m just a fella, a fella with an umbrella,
Glad to see the skies of blue have turned into skies of gray.
Raindrops have brought us together,
And that’s what I long to see.
Maybe the break in the weather will prove to be a break for me.
So I’ll be the fella, that fella with an umbrella,
If you’ll be the girl who saved her love for a rainy day.

Oh, the raindrops have brought us together,
And that’s what I long to see.
Maybe the break in the weather will prove to be a big break for me.
So I’ll be the fella, the kid with the small umbrella,
If you’ll be the girl who saved her love for a rainy day.
If you will be the girl, the girl who saved her love for a rainy day.

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Um Cara Com Um Guarda-Chuva.

Eu sou apenas um cara, um cara com um guarda-chuva
Procurando por uma garota que tenha guardado seu amor para um dia chuvoso.
Eu sou apenas um cara, um cara com um guarda-chuva,
Lisonjeado por ver que os céus azuis se tornaram céus cinzas.
Gotas de chuva nos uniram,
E é disso que eu tenho saudades de ver.
Talvez a mudança no clima prove ser um rompimento para mim.
Então eu serei o cara, aquele cara com um guarda-chuva,
Se você for a garota que guardou seu amor para um dia chuvoso.

Oh, as gotas de chuva nos uniram,
E é disso que eu tenho saudades de ver.
Talvez a mudança no clima prove ser um grande rompimento para mim.
Então eu serei o cara, aquele cara com um guarda-chuva,
Se você for a garota que guardou seu amor para um dia chuvoso.
Se você for a garota, a garota que guardou seu amor para um dia chuvoso.

Soneto para elas.

Publicado em Poemas. às Agosto 4, 2008 por nuancesazuis

Bem-aventuradas são as borboletas
Enfeites de breves silhuetas,
Vem com charme de debutante indefesa
Ser a reunião de toda delicadeza.

Suas asas ruflando são pés de bailarina
Em pleno balé trépida nas flores
Sua cor de um tão vivo falar fascina.
Na boca se projetam sabores…

Um dia, vi errante borboleta
Pousada em minha janela, sem igual:
Trazia grandes asas violetas!

Eu, a levada por incertezas
Ela, imóvel qual fotografia natural,
Encheu minha visão de beleza!


Imagem por Salvador Dalí.