Soneto para elas.

Bem-aventuradas são as borboletas
Enfeites de breves silhuetas,
Vem com charme de debutante indefesa
Ser a reunião de toda delicadeza.

Suas asas ruflando são pés de bailarina
Em pleno balé trépida nas flores
Sua cor de um tão vivo falar fascina.
Na boca se projetam sabores…

Um dia, vi errante borboleta
Pousada em minha janela, sem igual:
Trazia grandes asas violetas!

Eu, a levada por incertezas
Ela, imóvel qual fotografia natural,
Encheu minha visão de beleza!

Gabriela Arruda.

7 comments Agosto 4, 2008

O improviso em Ohio by Samuel Beckett.

“Vi o rosto querido e ouvi as palavras mudas
Não precisas mais ir ter com eles,
Mesmo que tivesses esse poder.
Assim, a triste história uma última vez redita,
Ficaram sentados como se fossem de pedra.
Pela única janela a madrugada não vertia nenhuma luz
Da rua nenhum ruído de ressurreição.
A menos que, abismados em sabe-se lá que pensamentos, eles estivessem insensíveis à luz do dia”

Fragmento de “Improviso em Ohio” por Samuel Beckett.

**************

Samuel Beckett traz mais uma vez o silêncio, “o abismo de consciência” que recai sobre a solidão da fantasiosa sociedade burguesa ocidental, palco das críticas do Teatro do Absurdo.

“Resta pouco a dizer numa última tentativa de sofrer menos.”


1 comment Julho 20, 2008

Uma breve reflexão.

Minha vida é como uma folha seca
Tem uma cor tardia e está prestes a desprender-se.
Em minha vida é sempre outono,
E dele sou fugidia com a imaginação verde,
Resistindo em minha estrutura frágil.

Minha vida é como uma folha seca
Partindo ao encontro do chão ou do infinito,
Partindo até onde o vento permitir
O regozijo da liberdade.

Minha vida voa depressa e despedaçada
E em cada pedaço carrego
O fosco de minhas lembranças pueris…

É evasiva, nostálgica e está em pedaços!
A minha vida: FRAG-MEN-TOS

Gabriela Arruda.

3 comments Julho 7, 2008

Marc Chagall.


      Marc Chagall foi um pintor russo que viveu 98 anos(1887 - 1985). Teve uma forte formação judaico-cristã, resultando em vários quadros em que sua religião está presente, como também o casamento.
    Costumava escapar à realidade natural, pintando pessoas, animais e objetos voando; além de elementos e cores, geralmente: azul, branco, fortes tons de vermelho, amarelo e verde; que formavam retratos de seu inconsciente.


     Seus quadros tinham um ‘quê’ de sonho, de fantástico, que o pintor figurava com um ar romântico e de infância.
    Nos anos que passou em Paris, Chagall incorporou traços cubistas em suas pinturas, estas também possuiam características do fauvismo e do surrealismo, sendo difícil, assim, encaixar Chagall em um movimento artístico modernista.
     Com seu modo particular de fazer arte, Chagall encanta a muitos.  Pintou cenários para “O pássaro de fogo” de Stravinsky e na fase final de sua vida dedicou-se aos vitrais para sinagogas e igrejas, mosaicos, cerâmicas e tapeçarias.

Os quadros usados aqui: A carruagem voadora, 1913.
                                          O Passeio, 1917.
                                          As três acrobatas, 1926. 

3 comments Junho 25, 2008

O guarda noturno.

[O guarda noturno]
Levantou-se com sua vida insípida,
Pintou sua roupa de branco,
Seus olhos de tristes,
O céu de negro,
A rua de vazia.
Misturou-se no cromatismo preto-e-branco
E se perdeu na noite…

 

Gabriela Arruda.

2 comments Junho 14, 2008

Das origens.

Ao longe, padeço a tua hora meiga
_ Chega-te a mim por um instante!
Trêmulos, onde meus dedos tocam passeia
Uma suavidade nunca percebida antes!

Há um misticismo em tua pele
Convertendo enigmas em superfície de veludo.
Emana perfumes que de um saber pode revelar tudo,
Mas que se espraiam nas mesmas fragâncias que impelem.

Teu corpo inteiro é um precipício
Em que desejo o suicídio
E no interior mais que etéreo
Das tuas entranhas, penetrar no mistério!

Gabriela Arruda.
Imagem por Gustav Klimt : Sea Serpents IV.

4 comments Junho 1, 2008

A metamorfose, Kafka*

No início do romance “A metamorfose” de Franz Kafka, o personagem Gregor Samsa desperta de um sonho agitado, metamorfoseado numa espécie monstruosa de inseto. Por um tempo, ele permanece deitado de costas e percebe sua nova condição. Pergunta-se “O que terá acontecido?” e constata que não é um sonho. Então, olha pela janela e vê que o dia está chuvoso, tenta se virar para o lado direito para dormir mais um pouco, mas sua carapaça o impede. Reclama de sua profissão de caixeiro-viajante e considera grotesco ter que acordar cedo.
O grande impacto deste início do romance advém do fato de que a escabrosa transformação da personagem em inseto é tratada de forma corriqueira pela personagem e descrita de um jeito frio e distanciado pelo narrador. Não se trata de a personagem sentir-se como um inseto, mas de sê-lo efetivamente, ou seja, não existe metáfora.
Chama a atenção o fato de que a experiência subjetiva da personagem é objetivada na forma de um inseto, de tal modo, que para Gregor Samsa não faz diferença, nesse primeiro momento, ter se tornado um inseto.

Já a família e a empregada de Gregor, apresentam comportamentos variados em relação à metamorfose. No princípio, a irmã de Gregor fica muito abalada com a metamorfose do irmão e procura, apesar do asco, cuidar para que ele fique bem. Faz isso para poupar seus pais da terrível experiência de ter um filho transformado em inseto. Esse comportamento, no entanto, se torna mecanizado com o passar do tempo.
A irmã alimenta por Gregor um sentimento contraditório. Porque julga conhecê-lo profundamente, passa a tratá-lo como um inseto. Essa atitude ambígua, ao mesmo tempo que o protege, reforça sua condição de estorvo para a família. À medida que Gregor deixa de ser útil no mecanismo familiar, a irmã o despreza cada vez mais, chegando a isolá-lo completamente. Para a irmã de Gregor, mais importante do que preservar a integridade do irmão, é manter em funcionamento a ordem da família.
A empregada representa o contraponto à hipocrisia dos bons sentimentos burgueses. A atitude pragmática da faxineira ao livrar-se do inseto, desmascara o comportamento interesseiro da família que, em nome dos “bons sentimentos”, mantinha o filho na casa por ter a esperança de que ele poderia voltar a ocupar sua função de provedor do sistema familiar.
A presença dos hóspedes, que os pais do protagonista acolhem, ressalta a imagem parasitária da família. Nesse sentido, os familiares de Gregor, contrastados com os hóspedes, se mostram mais insetos do que o filho, em quem pesa todo seu verniz de humanidade.
O romance encerra-se, após o isolamento e morte de Gregor, e a notícia da empregada à família de que se livrou “daquilo”. A família passa a ver o ocorrido como história passada e começa a fazer planos para o futuro. O sol abre e resolvem dar um passeio.
Superado o empecilho de ter um filho metamorfoseado em inseto, a família retoma à sua pacata vida burguesa. Essa atitude revela que na sociedade capitalista, as relações pessoais, inclusive as relações familiares, têm um caráter utilitário determinante.
Gregor Samsa, como peça desajustada desse sistema, é simplesmente descartado, uma vez que não mais supria as necessidades econômicas da família. Ressalta-se, neste livro, o mundo da aparência burguesa, onde o que importa é estar “bem ajustado”.

 

* Rememorando o primeiro período do curso. Prova que fiz em conjunto com Márcio, Dan e João, na cadeira de Introdução aos Estudos Literários :]

 

 

 

3 comments Maio 24, 2008

Gradação Universal.

foto de solfier em 15/04/07

O vento leva a areia das planícies,
As folhas caídas do outono,
Volve-lhe entre os dedos…
O cavaleiro, erguido,
Percebe a sua realidade ilusória
Vê quanto a natureza é perfunctória
Banhada em seu perfume de vida, lívido!
O seu aroma o desperta
Trazendo uma pungente saudade
De um tempo mais vívido!

O cavaleiro, prostrado,
Olha ao seu redor…
As pedras são damas tristes,
As flores um quadro inacabado…
Então espera, esvaindo-se
O ameno adeus - sutil e eterno -
E começa a entender
Em suas horas derradeiras:
A beleza do efêmero.

Gabriela Arruda.

5 comments Maio 12, 2008


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