O rosto alheio

Postado em Poemas. em novembro 22, 2009 por nuancesazuis

A face que se mostra – singela e disposta-
Guarda vestígios distantes reclusos em rugas e traços.
De repente, como se houvesse a luz de um grande refletor
Se apresenta em minha frente um rosto de horror!

Os olhos, de uma fome sem fim
Brilham com desespero devorador,
O nariz degenerando-se em excreções vis
E a boca torta por palavras mal compostas…

De repente assim,
Ao piscar os olhos
[ou apagar o grande refletor
É desfeito o embaraço!

A face que se mostra – singela e disposta-
Sorri, e traz as bochechas decoradas com carmim.

Imagem por Francis Bacon.

Miopia do real, cegueira dos sonhos.

Postado em Poemas. em setembro 20, 2009 por nuancesazuis

magritte7Prefiro olhar no céu as nuvens cinzentas
Nos dias em que o céu cinza se apresenta
E me perder no seu claro azul dos dias quentes
Com o sol distorcendo visões e pensamentos,
Se não alcanço a nitidez em todos os momentos
Os meus olhos precisam de lentes!

A fantasia se projeta em espelhos
Espalhando-se pelo sangue em série
É preciso ter os olhos abertos, acesos
E observar do céu suas intempéries.
Se não, ao fechar os olhos, no céu das pálpebras
Só me restará um escuro entre preto e vermelho…

Imagem por René Magritte.

A árvore bicentenária

Postado em Poemas. em maio 30, 2009 por nuancesazuis

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Bem no meio de uma praça esquecida
Uma árvore de raízes colossais,
Atravessa o tempo em solidão desmedida,
Assistindo aos espetáculos de gestos boçais.

Tronco invejoso dos ciganos! Murmura o seu lamento…
Recebe dos animais a excreção
E na ânsia de lavar-se em purificação
É pescador de presságios trazidos pelo vento!

Cúmplice dos atos mais escarninhos
Em tua sombra segredaste amores disfarçados,
Amante virgem de bêbados cansados
Nutres de mágoa o teu corpo daninho.

Ontem, escondeu-te em ti uma criança
[escapando um carinho
Pássaros se divertem entre teus galhos, fazem ninhos…
__  Árvore mãe de centenas de anéis:
São só breves afagos infiéis!

Árvore de senis histórias,
Quão penoso é seu legado!
Nunca contarás um instante de vitória,
Condenada à prisão eterna dos pecados.

Imagem de Salvador Dalí.

Café noturno.

Postado em Poemas. em abril 17, 2009 por nuancesazuis

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Nessa noite eu quero um café noturno.
Um café mergulhado em estrelas reluzentes
Beber o céu escuro e de amargos versos
Na evasiva de um corredor imerso
Na escuridão de casais inexistentes.

O vazio que decora e assombra o ambiente
Faz as mesas serem várias e apenas uma.
Num açoite, tomo todo o café ou o universo,
Já não reluzem as estrelas nem luz alguma
Mas dentro de mim reverberará um brilho diferente…

Saio do café.
Meus passos somem errantes pela noite.
E a única certeza que me agrada,
É que no frio que petrifica a madrugada
O meu corpo seguirá quente!

Pintura de Van Gogh.

O medo

Postado em Poemas. em janeiro 31, 2009 por nuancesazuis

dali_soldier_warning-o-medo1Tenho mil temores, horrores, grupelhos
Edificados por medos e instintos.
Se se levanta o pavor em minha frente sinto
Um enorme monstro multiplicado por espelhos!

Por sua extensão cascuda desce o lume
Decifrando a agonia dos meus movimentos
E quando a asfixia está prestes a irromper a asma
Alastra-se a voz clara que a minha mente assume:

- Não penses que vem de fora para dentro
Essa tua expressão pasma
Vem do interior trépido de desconhecimento
Do arrepio de especulações que não chegam ao centro…

…. O medo é o maior fantasma! -

Nalgum lugar o fantasma do medo se recolhe
Retraído, seu corpo não está morto, apenas dorme.
E persiste na sua face adormecida e muda
O brilho salvagem do olho na órbita papuda.


Pintura de Salvador Dalí, advertência do soldado.

Perto do anoitecer

Postado em Poemas. em janeiro 11, 2009 por nuancesazuis

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Unidos os dedos mornos
Aquecem carinhos de casal pela rua deserta.
Andam com frescor, as omoplatas bem abertas
Em cada peito um coração à bordo.

Lado a lado, algo por dentro zarpa no entusiasmo,
A navegar por um mar de inquietação…
Agitando a água com veemência de paixão,
Um rio deságua no interior do corpo pasmo!

É doce como são os rios – foi ao mar em naufrágio
E só se enxerga confundir os corpos o sereno frágil!
Vai-se o casal a conhecer o amor à forma nua
Mas suas almas seguem tão sozinhas quanto aquela rua.

Pintura: La promenade, Renoir.

O homem que assobiava nuvens

Postado em Poemas. em dezembro 26, 2008 por nuancesazuis

Cansado de ter pensamentos de aluguéis
Registrava novos matizes em seus papéis.
Logo o sol aqueceu sua cabeça rente
E fortes sensações o empurraram para a frente!

Vagou por imensos trigais de pincéis
(acariciando seus cabelos)
A natureza divagava sob seus pés descalços,
A imensidão sensível atravessava-lhe a epiderme,
Brincava em suas narinas – arrepiava-lhe os pêlos!

Sentou-se na vastidão a contemplar…
Talvez com palavras gentis ou malvadas
Mas da sua boca só saiam fumaças azuis e douradas…
O universo estava todo auriazul.
Era a metafísica em transformação arrebatada
Era toda a vida sendo reinventada!

Pintura de Emil Nolde.

Sem título.

Postado em Poemas. em outubro 28, 2008 por nuancesazuis

A vida – começo e meio- passa esguia
No relógio, os ponteiros batem em vigia
O prazer virá de que fonte?
Se o fim levará o começo e o meio.
Minha imagem-mundo que se monte
Em uma ponte, um rio, um vazio.


Imagem: Edward Hopper.

Relato de um instante torto.

Postado em Outras nuances. em setembro 27, 2008 por nuancesazuis

Caminhava a passos amargos, como a sentir o pesar do dia. Vi, de repente, carcomida estátua carregando um semblante de horror! Meu corpo permaneceu imóvel, congelado de pavor! Quantos pensamentos distorcidos trazia aquele objeto tão estéril! Uma parte sua faltava… Para diminuir minha repugnância ou aumentar seu suplício? Continuei a caminhar, taciturno. Bem sabia: por mais horripilante que ela seja e jamais ninguém a esqueça, nunca passará de uma feia e inacabada estátua.


Imagem por Francis Bacon. (Na falta de uma estátua, coloquei uma pintura do Bacon, nada melhor para representar o horror não? Apesar dessa pintura ser até simpática.)

Convite

Postado em Poemas. em setembro 6, 2008 por nuancesazuis

Vem
E percorre a estrada longa e aflita,
Cheia de sede e sem jardim.
Descendo vertical e infinita
Ao abismo escuro e secreto
[de mim]


Imagem: Judith, por Gustav Klimt.